Diretora de Pesquisa e Inovação da FGV modera debate sobre contribuições do setor de seguros para a agenda climática na COP30
O impacto das mudanças climáticas no setor de seguros foi tema central do painel “Reflexo do Clima no Setor de Seguros”, realizado em 14 de novembro na Casa do Seguro. Especialistas discutiram como a maior frequência e intensidade dos eventos climáticos extremos desafiam a indústria, exigindo novas estratégias de gestão de riscos, inovação em produtos e mecanismos de financiamento para garantir resiliência e sustentabilidade.
A diretora de Pesquisa e Inovação da Fundação Getulio Vargas (FGV), Goret Paulo, abriu o debate destacando a relevância do tema:
“Desde o meu primeiro dia aqui na COP30, tenho visto que os temas abordados costumam ser grandes oportunidades para a indústria de seguros, porque em todos os debates sobre o impacto das mudanças climáticas identificamos áreas de interseção com o setor”, disse Goret, que moderou o debate.
A diretora reiterou que exemplos de eventos climáticos extremos estão muito mais frequentes e intensos no Brasil:
“Esses fenômenos geram impactos duradouros na saúde física e mental, além de perdas materiais e de meios de vida na população.”
Goret também chamou atenção para lacunas críticas de informação e o impacto das mudanças climáticas na saúde:
“No Brasil, não há levantamento de dados sobre o impacto das ondas de calor. Não sabemos qual é o limite ou definição: a partir de qual temperatura teremos impacto na saúde ou óbitos? Esse é um tema que reforça a importância da coleta, armazenamento, tratamento e análise de dados. Também precisamos considerar doenças infectocontagiosas, que tendem a aumentar com a redução das florestas e mudanças climáticas.”
Entre as soluções apresentadas, a diretora destacou propostas de pesquisadores da FGV que atuam em áreas estratégicas, como habitação social:
“Áreas vulneráveis são as mais afetadas pelas mudanças climáticas, e as pessoas que vivem nessas regiões são candidatas à habitação social, segmento pouco desenvolvido no Brasil. Os pesquisadores da FGV desenvolveram um modelo que envolve fintechs e seguros para garantia de pagamento de aluguel, reduzindo riscos para locadores e aproveitando imóveis vagos próximos aos centros produtivos. Isso diminui deslocamentos, emissões e melhora a qualidade de vida das pessoas.”
Além de habitação social, o mercado de carbono e seguros para grandes catástrofes também foram apontados como oportunidades estratégicas:
“Um dos elementos fundamentais que falta para o desenvolvimento do mercado de carbono no Brasil é a questão dos seguros, que podem melhorar a identificação e alocação de riscos. Um grupo de pesquisadores da FGV desenvolveu um modelo que inclui seguro para grandes catástrofes e medidas preventivas por parte das cidades. Cidades que adotarem práticas de resiliência pagarão prêmios menores e terão maior acesso a financiamento.”
A diretora reforçou que, diante das restrições orçamentárias do setor público, mecanismos como blended finance e seguros são essenciais para viabilizar essas soluções.
A discussão foi ampliada por Eduarda La Rocque, diretora do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB(Re)), que alertou para o atraso do país na agenda de proteção:
“Nos últimos 33 anos, os desastres climáticos aumentaram cinco vezes, gerando muita injustiça climática. Precisamos unir os modelos sofisticados do setor de seguros e do mercado de capitais com setor público, privado, academia e reguladores. Temos um gap de proteção gigantesco no Brasil.”
Do lado acadêmico, Jean Pierre Ometto, pesquisador sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), apresentou a plataforma AdaptaBrasil, que integra dados climáticos e vulnerabilidade social. Ele destacou o desafio de incluir questões climáticas nas análises de riscos:
“As análises que o setor de seguros faz são sensacionais, o desafio é inserir essa camada climática. Uma onda de calor não é pontual, mas um tufão é. Como se mapeia e se projeta isso? Então a ideia dessa ferramenta é que a gente possa trazer esse elemento de incerteza climática dentro do contexto socioestrutural que temos no país, em uma diversidade continental.”
A dimensão econômica dos riscos foi destacada por Pedro Farme, CEO da Guy Carpenter:
“A ONU divulgou que 2024 fechou com 320 bilhões de dólares em perdas por eventos da natureza. Ou seja, o mundo perde um ‘Brasil’ por ano - a oitava maior economia do mundo - devido a esses eventos. No ano passado, trouxemos para o Brasil o primeiro modelo probabilístico e estatístico de catástrofes naturais. Após um ano, já conseguimos trazer R$ 6 bilhões a mais de resseguro catastrófico para o país.”
Por fim, Pedro Werneck, gerente de Sustentabilidade da CNseg, celebrou avanços na agenda global:
“A CNseg chegou à COP30 com o objetivo de incluir o seguro na agenda global sobre clima, e ao que tudo indica, atingimos esse objetivo. Queremos que o seguro apareça na declaração final dos líderes, gerando repercussão positiva no mercado nacional e internacional, estimulando novos produtos e práticas socioambientais responsáveis.”
Confira o debate na íntegra clicando aqui.
A cobertura completa da participação dos pesquisadores da Fundação Getulio Vargas na COP30, incluindo agendas, conteúdos exclusivos e contribuições destes pesquisadores para a ação climática global, está disponível na Plataforma Agenda do Clima FGV. As opiniões expressas nesta publicação são de exclusiva responsabilidade dos pesquisadores colaboradores e não refletem necessariamente a posição oficial da Fundação Getulio Vargas.