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Ciência e cooperação internacional ganham protagonismo na Amazon Week

Durante painéis promovidos pela FGV, pesquisadores e especialistas analisam e fazem recomendações sobre políticas públicas baseadas em evidências científicas para conciliar conservação ambiental e desenvolvimento socioeconômico.
Ciência e cooperação internacional ganham protagonismo na Amazon Week

Entre os dias 1 e 6 de junho de 2026, as cidades de Bruxelas, Paris, Berlim e Londres sediaram a quarta edição da Amazon Week, uma iniciativa estratégica do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty). Nesta edição, o evento contou com uma presença mais ativa do setor acadêmico, liderado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), que organizou painéis em Bruxelas nos dias 3 e 5 de junho, ampliando o espaço para debates fundamentados em evidências científicas.

Durante a abertura do primeiro painel do dia 3 de junho, Marcel Botelho, Presidente do Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap), afirmou que, diante dos desafios da Amazônia, é preciso consolidar o que especialistas chamam de "Plano B": uma transição de economias extrativistas tradicionais para uma bioeconomia regenerativa e lucrativa, que priorize o bem-estar das populações locais.

“O desafio reside em garantir que os benefícios econômicos cheguem "ao chão", impactando diretamente os habitantes dos municípios mais pobres e vulneráveis do interior”, destacou Botelho.

Painel 1: Métricas, Mercados e a Urgência da Conservação

Intitulado "Carbono, Conservação e Sistemas Agrícolas e Pecuários Sustentáveis", o primeiro painel buscou explorar caminhos para alinhar o crescimento da produção agropecuária à preservação ambiental sob uma governança robusta. A sessão sublinhou que a Amazônia é o maior repositorio de carbono do mundo, sendo a manutenção da floresta uma condição sine qua non para o cumprimento do Acordo de Paris.

Marcelo Behar, pesquisador da FGV e Enviado Especial para Bioeconomia da COP30, alertou que "todo o carbono armazenado na Amazônia é equivalente a todo o carbono que os EUA emitiram desde a revolução industrial".

Complementando a visão técnica, Guilherme Bastos, coordenador do Centro de Estudos em Agronegócio (FGV Agro), apontou a insegurança fundiária como um dos maiores entraves econômicos para a preservação da floresta: mais de 50% das grandes propriedades na Amazônia não possuem título legal, o que inviabiliza o avanço de mercados de Cota de Reserva Ambiental (CRA) e Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA).

A perspectiva internacional de conservação ambiental foi trazida por João Campari, Líder Global da WWF International, com a menção de que o sistema alimentar global gera um valor líquido negativo de 11 trilhões de dólares anuais devido a custos ambientais não contabilizados. "O Brasil é grande o suficiente para não cortar mais nenhuma única árvore", afirmou Campari. 

No campo das oportunidades, Gustavo Ferreira Ribeiro, Líder de Inteligência de Mercado da ApexBrasil, informou que a Amazônia Legal exporta anualmente 610 milhões de dólares em produtos compatíveis com a floresta, mas ressaltou a dificuldade de rastreamento de dados em cadeias como açaí e castanha, o que pode levar a subestimação dos valores exportados. 

Por fim, Gisele Obara, Diretora da Trias Brasil, reforçou que o sucesso desse modelo depende do fortalecimento do cooperativismo e da inclusão produtiva de jovens e agricultores familiares, que produzem até 70% dos alimentos locais. Para viabilizar esse mercado, Fernanda Stefani, CEO da 100% Amazônia, defendeu a padronização de regras para utilização dos produtos locais como    ingredientes para indústrias globais, transformando a riqueza da biodiversidade em ativos funcionais para cosméticos e suplementos.

Painel 2: A Ciência como Eixo de uma Transição Justa

O segundo painel, "Transição Justa na Amazônia", focou em buscar soluções para o paradoxo de uma região rica em recursos naturais, mas com a maioria da população em situação de pobreza e vulnerabilidade. A abertura da sessão contou com a participação do Embaixador do Brasil junto à União Europeia, Pedro Miguel da Costa e Silva, que destacou a complexidade do desafio de governança na região.

Segundo o diplomata, o combate à exclusão social deve ser acompanhado de rigor institucional: "A questão da pobreza e da desigualdade é a questão de encontrar opções para os milhões de pessoas que estão lá. É também, é claro, uma questão que envolve a aplicação e manutenção da lei, o combate a atividades ilegais, o combate a grupos ilegais e ao crime transnacional", afirmou, defendendo uma abordagem coerente para que o Brasil e a UE trabalhem em conjunto.

Em complemento, Geert Anckaert, da Comissão Europeia (DG INTPA), apresentou o programa Global Gateway, que pretende alavancar 300 bilhões de euros em investimentos sustentáveis, incluindo 20 milhões de euros recém-destinados ao Fundo Amazônia. Em seguida, Cesar Cunha Campos, diretor do FGV Europe, reforçou que a preservação da Amazônia depende da criação de uma economia produtiva baseada em biotecnologia e nos sistemas de conhecimento indígenas. 

Goret Paulo, diretora de Pesquisa e Inovação da FGV, deu início as apresentações do painel demonstrando modelos concretos de inovação. Iniciou descrevendo o modelo de "bioeconomia social circular", exemplificado pelo manejo sustentável do pirarucu e o uso integral de sementes nativas, como andiroba e murumuru para a produção de cosméticos, ambas atividades geradoras de renda, desenvolvidas e gerenciadas por comunidades tradicionais locais. "Estamos falando de inovação sustentada por políticas públicas que respeitam e valorizam o conhecimento local".

A eficácia de políticas baseadas em dados foi demonstrada por André Portela, coordenador do FGV Clear, ao apresentar os resultados do programa TeleAmes. A iniciativa de telessaúde reduziu a necessidade de deslocamentos terrestres penosos para pacientes e profissionais de saúde, evidenciando como a tecnologia pode mitigar os desafios da  geografia. 

"Acreditamos que a pesquisa deve estar fortemente conectada às políticas públicas para preencher a lacuna entre o conhecimento acadêmico e a prática governamental".

Os riscos climáticos severos foram detalhados por José Marengo, pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e um dos pesquisadores principais do Centro de Estudos sobre Riscos Climáticos e Resiliência (FGV CR²). Marengo alertou sobre os "pontos de ruptura" e a tendência de algumas áreas da Amazônia passarem a liberar carbono.

O pesquisador fez um apelo para que se enxergue a floresta além de sua aparência: "Não vejam a floresta apenas como um 'tapete verde'; tem pessoas morando lá e tem biodiversidade. Todos estão conectados. E se você quebrar a conexão, teremos uma grande mudança". Ele advertiu ainda que, caso ocorra um colapso florestal, "podem esquecer a bioeconomia e tudo mais", alertando para a importância de conservar a floresta como forma de incentivar o crescimento socioeconômico.

A transição energética foi outro ponto crítico. Guilherme Bastos (FGV Agro) destacou que 96% dos sistemas isolados na Amazônia dependem de diesel, com custos dez vezes superiores à rede nacional. Ele defendeu que a substituição por fontes renováveis poderia evitar a emissão de 1,5 milhão de toneladas de CO2 até 2030.

A biodiversidade como ativo estratégico foi o tema de Geraldo Fernandes, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). "O carbono sozinho pode não ser tão bom para a Amazônia porque precisamos de biodiversidade. Sem biodiversidade, teremos uma floresta vazia", alertou Fernandes.

Ele citou o exemplo da própolis verde, que custa 180 mil dólares o quilo, afirmando que "o valor de uma floresta viva deve exceder o valor do desmatamento”.

Encerrando as apresentações, Julie Dumont, Adida Científica da Wallonie-Bruxelles International, apresentou o projeto Gastronom Amazonian. "O foco aqui é valorizar a biodiversidade e a bioeconomia amazônica com o objetivo de integrar esses produtos no mercado local e internacional", explicou Dumont. 

Ao final, o evento consolidou a ideia de que a preservação da Amazônia exige integração ética, políticas públicas que viabilizem o investimento de longo prazo e, acima de tudo, um novo modelo de desenvolvimento socioeconômico, respeitando-se o conhecimento das comunidades tradicionais locais e preservando-se os recursos naturais para as gerações futuras. 

É possível conferir as apresentações realizadas pelos especialistas durante os painéis promovidos pela FGV na Amazon Week clicando aqui.

Subtítulo
Durante painéis promovidos pela FGV, pesquisadores e especialistas analisam e fazem recomendações sobre políticas públicas baseadas em evidências científicas para conciliar conservação ambiental e desenvolvimento socioeconômico.
Data
2026-06-22T12:00:00