De Belém à Turquia: O papel do seguro na agenda climática
No dia 21 de novembro, a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) em conjunto com a United Nations Environment Program Finance Initiative (UNEP FI) Principles for Sustainable Insurance (PSI) realizaram na Casa do Seguro, a mesa redonda “From Belém to COP31: A High-Level Dialogue on the Role of Insurance in the Climate Transition”. O painel reuniu um grupo seleto de líderes dos setores de seguros, finanças, sustentabilidade e políticas climáticas, além de pesquisadores da Fundação Getulio Vargas (FGV), para refletir sobre os resultados da COP30 e começar a desenhar a rota para a Turquia, sede da próxima COP.
Segundo o presidente da CNseg, Dyogo Oliveira, a proposta da mesa de debates foi ouvir diferentes perspectivas sobre os resultados alcançados pela COP30 e os desafios para a serem tratados ao longo de 2026 como preparação para a próxima COP. As contribuições do setor de seguros para as ações de mitigação e adaptação climática foram o foco principal das discussões realizadas.
“Essa também foi uma COP do setor privado. O setor privado se apresentou muito, trouxe resultados e projetos novos. Sabemos que as negociações das NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas) estão em um momento difícil, dependem de condições geopolíticas além da COP. Mas, olhando para os avanços concretos, tivemos grandes compromissos das empresas, entidades e até dos governos, que apresentaram programas e projetos relevantes. Saio contente dessa COP do ponto de vista da objetividade”, afirmou.
Oliveira destacou ainda o equilíbrio entre as agendas de mitigação e adaptação e defendeu a criação de uma força-tarefa global para consolidar o papel do seguro na agenda climática:
“Precisamos desenvolver grandes líderes globais da indústria de seguros e conectá-los aos stakeholders que influenciam decisões e políticas sobre mudanças climáticas. É um passo essencial para viabilizar soluções nesse caminho.”
FGV traz ciência e inovação para o debate
A participação de pesquisadores da FGV foi marcada por contribuições estratégicas sobre bioeconomia, agricultura e integração entre ciência e políticas públicas. Marcelo Behar, pesquisador da Escola de Direito de São Paulo (FGV Direito SP) e enviado especial para Bioeconomia, destacou três rotas apresentadas pela presidência brasileira da COP:
“O primeiro caminho é o financiamento, e o setor de seguros é o maior aliado para estruturar recursos públicos e privados para a transição. A segunda rota é central: no mundo, 70% das emissões vêm da energia; no Brasil, 70% vêm do uso da terra. Precisamos integrar lavoura, pecuária e floresta, criar soluções agro que segurem carbono e tragam vida, e isso vai depender fortemente dos seguros. A terceira rota é a transição dos combustíveis fósseis, um desafio histórico. Não será imediato, mas os subsídios vão migrar para agricultura e soluções biológicas, e a indústria de seguros será um apoiador dessa nova economia.”
Na perspectiva do agronegócio, Guilherme Bastos, coordenador do Centro de Estudos do Agronegócio (FGV Agro), ressaltou a relevância das soluções baseadas na natureza e do pagamento por serviços ambientais:
“O Brasil já tem um plano de agricultura de baixo carbono há muito tempo, com apoio da pesquisa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Essa COP foi um marco para reforçar a associação entre academia, setor privado e governo. Outro ponto crucial é incluir o pagamento por serviços ambientais na equação, para apoiar pequenos, médios e grandes produtores.”
Ciência como base para políticas públicas
Para Goret Paulo, diretora de Pesquisa e Inovação da FGV, a COP30 consolidou a presença da academia como protagonista na construção de soluções:
“Vi com bons olhos a participação da academia em diversos painéis, inclusive na Casa do Seguro. A ciência está andando de mãos dadas com os setores público e privado nos desafios globais, seja na manutenção da meta de 1,5°C, no financiamento verde, na redução do desmatamento ou na transição energética. Essa COP mostrou que políticas públicas baseadas em evidências não são um conceito vago, mas uma prática aplicada no Brasil, trazendo avanços que beneficiam toda a sociedade.”
Goret lançou ainda um desafio para a próxima conferência:
“Para a COP31, precisamos aprofundar a cooperação entre academia e os setores público e privado para garantir a coleta, tratamento e análise de dados para embasar políticas públicas.”
Também participaram do debate André Andrade, diretor de Programa da Secretaria-Executiva do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima; Butch Bacani, head de Seguros do United Nations Environment Programme; Clare Shakya, diretora de Clima da The Nature Conservancy (TNC); Eduardo Brito Bastos, Diretor da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG); Ivo Kanashiro, Superintendente de Sustentabilidade da MAPFRE; Luiz Pires, Gerente de Sustentabilidade e Inovação da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA); e Raoni Vale, Oficial de Transição Justa da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
É possível assistir ao debate na íntegra através deste link.
Agenda do Clima FGV
A cobertura completa da participação dos pesquisadores da Fundação Getulio Vargas na COP30, incluindo agendas, conteúdos exclusivos e contribuições dos pesquisadores da instituição para a ação climática global, está disponível na Plataforma Agenda do Clima FGV. As opiniões expressas nesta publicação são de exclusiva responsabilidade dos pesquisadores colaboradores e não refletem necessariamente a posição oficial da Fundação.