Diretora de Pesquisa e Inovação da FGV analisa impactos das mudanças climáticas na saúde em painel na COP30
O painel “Clima e Saúde: Redesenhando o Seguro para um Futuro Sustentável”, realizado em 15 de novembro na Casa do Seguro durante a COP30, discutiu como a crise climática impacta diretamente a saúde pública e desafia o setor de seguros a inovar. Diante de perdas globais de US$ 280 bilhões em 2023, com apenas 40% seguradas, especialistas apontaram medidas para ampliar a proteção para populações vulneráveis e transformar o seguro em um agente ativo de resiliência climática.
Além disso, o painel trouxe à tona um tema importante na conferência: a relação entre clima e saúde, e como o setor de seguros pode atuar para reduzir vulnerabilidades e acelerar soluções sustentáveis.
A vice-presidente da Prudential do Brasil, Gabriela Al-Cici, abriu a discussão destacando que os extremos climáticos deixaram de ser exceção e estarão cada vez mais frequentes no cotidiano da população.
“Quando falamos desses eventos, falamos sobre frequência, intensidade e como vão aumentar à medida que a crise climática avança. Não é apenas uma agenda ambiental, é uma agenda humana”, disse a vice-presidente que moderou o painel.
Gabriela ressaltou a interdependência entre clima e saúde:
“O sistema de saúde é um subproduto do sistema climático. Quando um desequilibra, o outro vai junto. Eles são convergentes. Por isso queremos discutir como o setor de seguros pode se tornar não só um amortecedor desse impacto, mas também um acelerador de soluções sustentáveis, conectando clima, saúde, inovação e justiça climática.”
A diretora de Pesquisa e Inovação da Fundação Getulio Vargas (FGV), Goret Pereira Paulo, reforçou que o tema é desafiador, especialmente no Brasil:
“Falar sobre a saúde da população brasileira é um desafio antigo no país, apesar de termos o Sistema Único de Saúde (SUS) que é referência mundial. No entanto, algumas preocupações adicionais surgem com as mudanças climáticas.”
Goret apresentou algumas estimativas sobre os potenciais impactos dos eventos climáticos extremos sobre os sistemas de atendimento primário à saúde:
“Segundo relatório do Banco Mundial, cada evento climático extremo pode reduzir de 25% a 50% a capacidade do sistema de atendimento primário à saúde. Em alguns casos, essa capacidade pode chegar a zero. O tempo de recuperação do sistema pode variar de um a cinco anos”, mencionou Goret, que também participa do Conselho Consultivo do Instituto de Inovação em Seguros e Resseguros da Fundação Getulio Vargas (FGV IISR)
Ela destacou ainda alguns outros impactos para a população:
“O custo estimado desses eventos para América Latina e Caribe seria de 7 a 37 bilhões de dólares, com um número de mortes estimado entre 32.100 e 165 mil. Mas não estamos falando só de mortes ( que são sempre uma tragédia a ser evitada): há impactos prolongados na saúde mental da população devido a perda de meios de sustento e deslocamentos forçados.”
Diante das restrições orçamentárias do SUS, Goret defendeu parcerias:
“O SUS sozinho não tem condições de enfrentar esses desafios. É necessária uma cooperação com o setor privado, e o setor de seguros tem papel fundamental para segurar vidas.”
Outro ponto crítico, segundo a diretora, é a falta de dados: “Quantas cidades brasileiras têm pontos de coleta para medir a qualidade do ar?”
Do lado científico, Jean Pierre Ometto, pesquisador sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), alertou para a complexidade do cenário:
“Estamos transitando para um ambiente que a sociedade não conhece, com eventos de intensidade inédita. Esses choques se materializam em impactos que agravam desigualdades sociais e vulnerabilidades já existentes.”
Por fim, Luciana Dall'Agnol, superintendente de Sustentabilidade da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), destacou o papel estratégico do setor:
“Estamos falando da resiliência do país a longo prazo. O setor de seguros vive de dados, e precisa letrar segurados e população nesse ‘novo normal’. Quanto maior a lacuna de proteção, menos responsivo é o país após uma ocorrência climática de grandes proporções.”
É possível assistir ao debate na íntegra neste link.
A cobertura completa da participação dos pesquisadores da Fundação Getulio Vargas na COP30, incluindo agendas, conteúdos exclusivos e contribuições destes pesquisadores para a ação climática global, está disponível na Plataforma Agenda do Clima FGV. As opiniões expressas nesta publicação são de exclusiva responsabilidade dos pesquisadores colaboradores e não refletem necessariamente a posição oficial da Fundação Getulio Vargas.