Especialistas apontam avanços e desafios pós COP30 para transformar compromissos em ação
O Centro de Estudos em Agronegócio (FGV) reuniu no dia 27 de novembro um grupo de pesquisadores para discutir os estudos e documentos produzidos direta ou indiretamente para a COP30, que contribuíram para as discussões da conferência, além de repassar os principais aprendizados e perspectivas que emergiram do evento.
Moderado pela pesquisadora do Observatório de Conhecimento e Inovação em Bioeconomia (FGV Bioeconomia), Camila Estevam, o Webinar Aprendizado e perspectivas da COP30 contou com a participação do professor emérito da FGV, Roberto Rodrigues; o pesquisador da Escola de Direito de São Paulo (FGV Direito SP), Marcelo Behar; a coordenadora do FGV Bioeconomia, Talita Pinto; o chefe Relações Internacionais da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Marcelo Morandi; e o diretor de Planejamento, Relações Institucionais e Preparação de Projetos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Nelson Barbosa.
Para Marcelo Morandi, a COP30 trouxe ganhos importantes, mesmo diante da complexidade das negociações:
“É um processo complexo, caótico por natureza. Mudanças disruptivas são raras, não dá para esperar milagres nas COPs. Tivemos vários sucessos importantes nessa edição, como a menção aos combustíveis fósseis e a valorização da agricultura na transição energética.”
Segundo ele, a agricultura tropical tem papel estratégico na redução das emissões e na adaptação às mudanças climáticas, o que reforça a necessidade de métricas específicas para esse contexto.
Marcelo Behar destacou o protagonismo brasileiro na COP30 e os ganhos simbólicos e práticos da realização do evento em Belém:
“Fazer a COP em Belém foi ao mesmo tempo um desafio logístico e um ganho para o mundo, que desconhecia o que é uma cidade amazônica. Belém tem o primeiro parque da bioeconomia montado, onde se vê na prática como criar novas tecnologias”, disse o pesquisador que também é o Enviado Especial de Bioeconomia.
Behar também ressaltou a volta do multilateralismo e a capacidade do Brasil de articular consensos:
“Conseguimos fechar um acordo e avançar com 29 encaminhamentos. O Brasil trouxe a questão central da pauta, que são os combustíveis fósseis, reunindo mais de 80 países em torno desse compromisso. Em bioeconomia, o TFFF (Tropical Forest Forever Facility) é um dos maiores ganhos, criando métricas e mercados para esse setor.”
Talita Pinto reforçou que a ciência deve ser o alicerce das metas climáticas:
“É a ciência que vai definir o que é possível, necessário e urgente, mostrando o quanto o planeta pode suportar de aquecimento e qual rota precisamos seguir para garantir segurança. Nenhum país deveria assumir metas sem respaldo técnico para saber se será possível tirá-las do papel.”
Além disso, ela lembrou que os dados científicos revelam assimetrias entre países, indicando quem emite mais, quem é mais vulnerável e quem tem maior capacidade de adaptação.
Nelson Barbosa destacou que a COP30 deu maior ênfase à adaptação, tema que exige soluções nacionais:
“Temos que gastar mais em adaptação para evitar perdas decorrentes dos extremos climáticos. Todo compromisso global precisa se traduzir em ações locais.”
Ele citou instrumentos como o Fundo Clima, administrado pelo BNDES, para financiar indústria verde, energia renovável e desenvolvimento urbano, além do TFFF como mecanismo de perpetuidade para países com florestas tropicais.
Para Roberto Rodrigues, a COP30 marcou uma mudança de patamar para o setor agrícola:
“A agricultura mundial ganhou com a COP30. Esse tema não era muito destacado nas conferências anteriores, mas desta vez assumiu posição fundamental na agenda. E o agro tropical tem uma dimensão maior que o resto do mundo por inúmeras razões.”
Rodrigues, que é o enviado especial para Agricultura, citou a Agrizone, vitrine montada pela Embrapa para apresentar a agricultura brasileira ao mundo:
“Milhares de pessoas visitaram a Agrizone, e muitos estrangeiros ficaram espantados com a grandeza da agricultura brasileira e sua defesa pró-clima. Os organizadores da próxima COP já demonstraram interesse em montar suas próprias Agrizones, um efeito espetacular da nossa participação.”
Após a primeira rodada do debate, os especialistas abordaram temas como combustíveis sustentáveis, certificação e manejo florestal como estratégia econômica, adaptação e mitigação na agricultura; conflito sobre metas para agricultura; e viabilidade econômica da agricultura de baixo carbono.
Behar destacou a relevância histórica da presidência brasileira da COP, que coloca o país no centro das negociações climáticas globais. Essa posição exige liderança para propor métricas e mecanismos que reflitam as especificidades do Sul Global, equilibrando interesses econômicos e ambientais.
“Em um ano que começa a presidência brasileira da COP, é importante lembrar que o evento de Belém marca o início. Agora o Brasil tem um ano para presidir a conferência do clima e entregar para a Austrália na conferência de Istambul, em novembro do ano que vem."
Barbosa apontou uma oportunidade concreta para o Brasil liderar a transição energética em setores estratégicos como transporte aéreo e marítimo.
“O principal caminho no curto prazo é investir no combustível sustentável de aviação e de navegação. São demandas que já estão colocadas, com critérios de adoção crescente. Quando existe demanda, a oferta se organiza, e o Brasil pode produzir isso em larga escala, com custo competitivo."
Morandi destacou um ponto crucial: a transição climática no agro não pode ser pensada apenas como redução de emissões. É preciso garantir resiliência produtiva antes de avançar em mitigação.
"Para agricultura, adaptação e mitigação são totalmente dependentes da ordem dos fatores. Se eu não tiver uma agricultura muito bem adaptada, não é possível fazer mitigação. E o contrário também é verdadeiro."
Durante o debate, Talita Pinto reforçou um ponto estratégico: a transição para práticas sustentáveis na agricultura não é apenas ambientalmente necessária, mas também economicamente vantajosa.
"Um dos nossos estudos mostra que, além do potencial de descarbonização das tecnologias do Plano ABC+, o retorno econômico, dado uma ampla implementação, poderia atingir cerca de 95 bilhões de reais por ano até 2030. Isso significa que não só é viável, como é rentável."
Assista ao debate na íntegra, clicando aqui.
A cobertura completa da participação dos pesquisadores da Fundação Getulio Vargas na COP30, incluindo agendas, conteúdos exclusivos e contribuições dos pesquisadores da instituição para a ação climática global, está disponível na Plataforma Agenda do Clima FGV. As opiniões expressas nesta publicação são de exclusiva responsabilidade dos pesquisadores colaboradores e não refletem necessariamente a posição oficial da Fundação.