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Indústria de seguros e pesquisadores discutem adaptação e mitigação climática em Londres

Evento realizado pela FGV durante a London Climate Action Week 2026 discutiu a utilização de evidências científicas e o papel dos seguros para adaptação e mitigação dos efeitos das catástrofes climáticas.
Indústria de seguros e pesquisadores discutem adaptação e mitigação climática em Londres

No dia 22 de junho, a Fundação Getulio Vargas (FGV), em colaboração com a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), promoveu a mesa-redonda "Risco climático e resiliência" na Queen Mary University of London (QMUL). O encontro, inserido na programação oficial da London Climate Action Week 2026, serviu como plataforma para debater a elevação dos riscos climáticos e as ações que estão sendo planejadas e implementadas ao redor do planeta para mensurar e mitigar esses riscos. 

O objetivo do evento central foi reunir diferentes setores – acadêmico, indústria de seguros, bancos de desenvolvimento e agências multilaterais – a fim de discutir como a utilização de evidências científicas podem servir para desenhar políticas públicas e apoiar o desenvolvimento de soluções inovadoras para o mercado de seguros, capazes de auxiliar na preparação da infraestrutura das cidades, a fim de enfrentar desastres climáticos mais intensos e frequentes. 

Na ocasião, a FGV apresentou um novo centro de estudos focado na mensuração dos riscos climáticos e no suporte a construção de políticas públicas e regulação adequadas para viabilizar infraestrutura consistente com a nova realidade climática. 

A ponte entre a academia e o mercado

A abertura do evento contou com Dyogo Oliveira, presidente da CNseg, e Goret Paulo, diretora de Pesquisa e Inovação da FGV. Oliveira iniciou a discussão provocando uma reflexão sobre a necessidade de maior diálogo entre o mercado de seguros e o setor acadêmico, enquanto Goret Paulo destacou que o novo Centro de Estudos em Risco e Resiliência (FGV CR²) busca justamente “trabalhar em conjunto com o setor público e privado e envolver pesquisadores, estudantes de mestrado e doutorado, facilitando desta forma a transformação de pesquisas em soluções inovadoras para o mercado de seguros." 

O FGV CR² nasceu com o objetivo de integrar ciência sobre o clima, economia e finanças, em um cenário em que desastres climáticos afetaram mais de 336 mil pessoas no Brasil, com prejuízos econômicos estimados em R$ 3,9 bilhões, segundo estimativa do CEMADEN - parceiro do FGV no CR². 

Nesse contexto, o Centro vai produzir ferramentas analíticas que apoiem a formulação de políticas públicas e regulação; a criação de instrumentos para medir, gerir e mitigar riscos climáticos; além de fortalecer a capacidade institucional do Brasil para responder à crise climática.

Essa necessidade de aplicação prática foi reforçada por Rui Esteves, Diretor-Geral Técnico do Grupo Fidelidade Portugal e Colíder do Impact Center for Climate Change, que detalhou um estudo interdisciplinar sobre incêndios florestais.

Segundo ele, o trabalho envolve mais de 20 pesquisadores para criar modelos científicos robustos que ajudem formuladores de políticas:

“O objetivo final é construir algo que combine de forma clara os riscos, as exposições, as vulnerabilidades e as perdas potenciais. Queremos ir além de apenas identificar riscos físicos e avançar para estimativas mais concretas sobre a magnitude das perdas esperadas”, destacou Esteves, ao apresentar mais um caso concreto de interação entre academia e mercado.

Os desafios da governança e o papel dos seguros

A discussão então avançou para o campo jurídico e de governança com Fernando Barrio, Reader in Sustainable Business Law and Policy na QMUL. Barrio argumentou que o risco climático não é apenas um problema científico ou financeiro, mas fundamentalmente um problema de governança:

“Podemos ter melhores dados, melhores modelos, melhores imagens de satélite, melhores sistemas de IA e produtos de seguro mais sofisticados, mas, a menos que esses instrumentos estejam incorporados em políticas públicas, capacidade institucional e legitimidade social, eles não necessariamente produzirão resiliência”.

Franziska Arnold-Dwyer, pesquisadora da University College London (UCL), destacou o papel dos seguros, defendendo que é necessário ir além da compensação financeira após catástrofes:

“O seguro não deve ser apenas uma solução pós-desastre. As seguradoras podem atuar de forma proativa na prevenção de perdas e na preparação das comunidades, garantindo benefícios humanitários e econômicos e fortalecendo a viabilidade do próprio mercado diante da intensificação dos eventos climáticos extremos.”

Planejamento territorial com enfoque na Amazônia urbana 

A interface entre ciência e planejamento urbano foi abordada por Thaisa Comelli, pesquisadora da UCL. Comelli enfatizou que as catástrofes são frutos de decisões humanas: “Desastres não são naturais; eles acontecem porque falhamos em entender as ligações causais entre decisões e consequências”. 

Veronica Galmez, especialista sênior do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), enfatizou o foco na questão urbana, que é crucial para a Pan-Amazônia, onde 70% dos 50 milhões de habitantes vivem em áreas urbanas.

“Embora financiemos a restauração e conservação de ecossistemas amazônicos, precisamos focar na resiliência das populações urbanas. As cidades são centros econômicos, de infraestrutura resiliente e mercados para fortalecer a bioeconomia amazônica”, afirmou.

Ela explicou que o BID, através de seu programa guarda-chuva Amazônia Sempre, está implementando também estratégias de prevenção e fortalecimento de sistemas de alertas precoces:

“Essas atividades de precaução visam construir resiliência”, ressaltou.

O papel estratégico do Brasil e dos Bancos de Desenvolvimento

A chefe do Departamento de Gestão do Fundo Amazônia do BNDES, Fernanda Garavini, destacou que a tarefa mais importante para um banco de desenvolvimento hoje é combater a crise climática.

“Com o Fundo Clima, financiamos desenvolvimento urbano resiliente, indústria verde, transição energética e restauração florestal. Passamos a alocação de orçamento anual de cerca de 100 milhões de dólares para cerca de 2 bilhões de dólares, para investimento nesses projetos”. 

Garavini também reiterou a necessidade de integração entre os diversos setores para solucionar a crise climática:

"Precisamos unir os atores privados e públicos. Devemos trazer o setor de seguros e incluir também os bancos centrais nessas discussões. Acredito que os estudos acadêmicos serão muito interessantes para ajudar a colocar tudo isso em uma equação".

Pelo Pacto Global da ONU, Rubens Filho, Gerente Executivo de Sustentabilidade, ressaltou o engajamento empresarial no Brasil. Ele sugeriu a criação de grupos de trabalho com seguradoras para discutir a "transição justa” e reiterou que um dos principais focos do Pacto Global é mobilizar o setor privado:

"No Brasil, mobilizamos até agora 130 empresas no Movimento Ambição Net Zero para que aprovem suas metas pela SBTi (Science Based Targets initiative). 

O representante do Pacto Global alertou ainda para a necessidade de planejar estratégias pra o futuro:

“Em termos de adaptação, trabalhamos diretamente com o governo brasileiro na plataforma AdaptaBrasil, treinando empresas para conectar seus dados e planejar suas estratégias de adaptação. Estamos conectados com diversas redes e organizações para viabilizar isso".

Adaptação das cidades às mudanças climáticas

No encerramento, Gesner Oliveira, pesquisador da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV EAESP) e pesquisador responsável pelo FGV CR² apresentou a importância dos dados para ajudar as cidades a se adaptarem às mudanças climáticas.

"Precisamos integrar soluções conjuntas, como o reuso de água e o mercado de seguros, utilizando o seguro paramétrico e a securitização para tornar o risco climático mais palatável e gerenciável. Ao viabilizar que o risco seja diluído no mercado de capitais por meio de Letras de Risco de Seguro (LRS), criamos um mecanismo robusto para mitigar os impactos de secas severas e fortalecer a resiliência das cidades brasileiras frente aos efeitos climáticos extremos”, declarou Gesner.

Após as falas iniciais, os especialistas convidados iniciaram um debate com a audiência presente. Para ficar por dentro das atividades do FGV CR², visite o site do Instituto de Inovação em Seguros e Resseguros da FGV.

Subtítulo
Evento realizado pela FGV durante a London Climate Action Week 2026 discutiu a utilização de evidências científicas e o papel dos seguros para adaptação e mitigação dos efeitos das catástrofes climáticas.
Data
2026-07-03T12:00:00